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ESCRITA AO QUADRADO: Tom King

“Os escritores são nada.”

Esta é a ideia que está na base desta coluna sobre escrita para BD, mas permitam-me que a clarifique: os escritores, sejam eles desenhadores do próprio material, ou guionistas que passam a outros as suas ideias, começam sempre do zero, de um abstracto que não existe. De um “nada”, que acaba por se tornar em alguma coisa, moldado pelas ideias, pelos conceitos e que ultimamente termina numa história, em desenhos, cor, arte final, legendagem, e todos os passos do processo pelo qual um nada passa a ser um “todo artístico”.

O escritor vive nessa angústia da ausência de referências para dar início ao processo, vivendo, respirando e sendo… nada, até que o tornem em algo mais.

Esta “Escrita ao quadrado” visa precisamente fazer uma ligação entre a nona arte e o processo de escrita que lhe está apenso, seja através de ensaios, críticas, análises de estilos, biografias ou meramente ao contar episódios famosos da história da escrita para BD.

E porque há que começar em algum lado, aproveito esta oportunidade para falar daquele que julgo ser neste momento o mais competente escriba da indústria de comics contemporânea, nomeadamente TOM KING.

À imagem de um bom e moderno artigo digital que se preze, apresento cinco pontos principais que defendem esta minha opinião, prometendo que nenhum deles é clickbait…

1- A FORMAÇÃO

Criado por uma mãe que trabalhava na indústria cinematográfica, Tom King cresceu rodeado de histórias e narrativas, algo que usou e aprofundou quando estudou Filosofia e História na Universidade de Columbia.

Recém-formado, cumpriria estágio nos departamentos editoriais da DC COMICS e da MARVEL, onde trabalharia como assistente pessoal do famoso argumentista CHRIS CLAREMONT.

Todavia, após o 11 de Setembro, tomaria a decisão de ingressar na divisão de contra terrorismo da CIA, na qual operaria durante 7 anos, experiência marcante que decide abandonar após se tornar pai, enveredando por uma carreira na escrita de romances e comics.

2- A DIVERSIDADE

Tendo dado nas vistas com “A Once Crowded Sky”, romance ilustrado com algumas páginas de BD, King é então convidado pela DC para co-escrever o título “GRAYSON” em parceria com TIM SEELEY, sobre as aventuras de um Dick Grayson recém-recrutado para uma força de espiões internacional, tema que assentava como uma luva ao escritor.

Porém, rapidamente escapa ao nicho temático, começando a escrever a Maxi-Série “OMEGA MEN” sobre uma força de rebeldes em combate com um império galáctico opressivo.

Curiosamente no mesmo ano de 2015, lança através do selo editorial VERTIGO para leitores adultos, a série de crime “SHERIFF OF BABYLON”, talvez a mais inspirada na sua vida profissional anterior, ou não retratasse perfeitamente os meandros da corrupção, crime e abusos da ocupação militar americana do Iraque.

Numa nova oportunidade, Tom King assina então pela MARVEL a Maxi-Série “VISION”, sobre o androide robótico dos Avengers, num estilo adulto, perturbador e reminiscente dos trabalhos de Phillip K Dick, ou não retratasse a criação de uma família sintética por parte do herói, numa busca do que constitui afinal “estar vivo”.

A atenção e a profusão de estilos, valeria a King um contrato exclusivo com a DC COMICS em 2016, onde não só pegaria no legado de SCOTT SNYDER para dar corpo ao título “BATMAN” após o propositadamente apelidado “REBIRTH” da sua linha de super-heróis, para a qual escreve ainda o livro, após quase dois anos. A juntar a isso, desenvolve o seu novo trabalho, uma homenagem ao estilo desbragado e febril de acção e conceitos de JACK KIRBY, no delirante “MISTER MIRACLE”.

3- DOMÍNIO DA LINGUAGEM DA BD

Muitas vezes usando grelhas base de 9 painéis, um pouco à imagem de “WATCHMEN”, em títulos como “OMEGA MEN”, “VISION” ou “MISTER MIRACLE”, TOM KING assume como poucos a compreensão do domínio dos tempos da narrativa de painel para painel, repetindo por vezes acções das personagens ou painéis silenciosos, para controlar o leitor e a sua compreensão e avanço da história. De facto, o escritor preconiza como poucos o chamado “contrato” narrativo com o leitor, deixando que este preencha o tempo de cada quadro e cada prancha com a mente, ligando as palavras e as imagens e completando o tempo e os acontecimentos entre estas, numa experiência por vezes cinematográfica e narrativa ímpar.

4- O PRIMADO DA ACÇÃO, SERVIDA POR DIÁLOGOS NÃO EXPOSITIVOS

Apesar de dominar o uso de uma redondilha curiosa de diálogos onde abundam repetições, interjeições e locuções adverbiais constantes, a principal característica da escrita de King passa por deixar muitas das vezes que seja a arte e a acção inerente a contar a história, usando os diálogos sobretudo para demarcar as personagens, as suas intenções e características, evitando apenas passar informação expositiva. Talvez por isso mesmo, abundam na sua obra os painéis silenciosos em muitas das suas obras.

5- OS COLABORADORES

E porque a BD é sobretudo uma arte visual, Tom teve a sorte de se rodear de alguns dos mais inovadores jovens talentos gráficos da indústria de comics, que não só entendem o primado das suas indicações, como se sentem à vontade para criar estilos próprios, no que se pretende ser sempre uma sinergia criativa que beneficie e inspire ambos os lados. Assim, nomes como MIKEL JANIN, MITCH GERADS, GABRIEL HERNÁNDEZ WALTA, DAVID FINCH ou LEE WEEKS têm sido algumas das suas principais parcerias, realizando trabalhos que cada vez mais granjeiam do apreço da crítica e do público, catapultando o nome de TOM KING como um dos indiscutíveis novos génios da escrita de comics da actualidade.

NUNO DUARTE

escritor e guionista de BD, TV, Teatro, Multimédia e cassete pirata assina esta coluna, negando-se a adoptar o acordo ortográfico e recomendando a toda a gente que leia o especial “BATMAN/ELMER FUDD” de TOM KING e LEE WEEKS, como um dos crossovers mais estranhos, belos e significativos dos últimos anos dos comics.

03 Dezembro
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As muitas mentes de Jamie Hewlett

Após ‘The Suggestionists’ a sua exposição triunfal na Saatchi Gallery em 2015, os fãs do multifacetado Jamie Hewlett ouviram o que há muito esperavam – era anunciada a preparação de um livro com o best-of da sua carreira. Há muito que o culto à volta do desenhador e designer inglês clamava por uma edição substancial dos seus diferentes projectos. A co-criação dos Gorillaz com o igualmente versátil Damon Albarn fez a sua popularidade transcender em muito a já adquirida com a sua icónica Tank Girl.
A publicação, em 2006, de ‘Rise of the Ogre’, respondera à vontade do público de saber mais sobre a banda virtual mas, contendo poucas imagens inéditas, não satisfez o coro crescente de fãs de Hewlett.
Esta nova monografia demorou um ano a mais do que o previsto a ser fechada mas o resultado é impressionante.

A edição multilíngue de “Inside the Mind of Jamie Hewlett” foi editada por Julius Wiedemann, um dos mais prestigiados nomes da editora Taschen, e cobre duas décadas de trabalho revolucionário, contendo mais de 400 trabalhos. Junto aos universos punk-pop pós-apocalípticos dos fenómenos Gorillaz e Tank Girl, surgem esboços, pósteres, B.D. e ilustrações de outros projectos. A extravagante produção da ópera ‘Monkey: Journey to the West’ concebida com o velho colaborador Albarn e dirigida por Chen Shi-Zheng merece aqui o seu próprio capítulo.

Cartas de tarot, inspiradas por Jodorowsky.

A 7 de Dezembro, o artista estará a assinar cópias deste clássico instantâneo na loja oficial da Taschen em Londres.
ISBN 978-3-8365-6093-1

p.s.: o artista está a produzir uma série de animação dos Gorillaz que deverá surgir em 2018

02 Dezembro
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Akira – 35 anos de revolução

Algures, há um altar ao movimento cyber punk que está prestes a ficar completo. A editora Kodansha, que de 1982 a 1990 publicou Akira, a seminal mangá de Katsuhiro Otomo, criou uma caixa com a saga completa em seis volumes em capa dura. Pela primeira vez, uma tradução das 2000 páginas em inglês estará estructurada no sentido de leitura japonês, da direita para a esquerda. Para celebrar o 35º aniversário da obra, a editora de Tóquio juntou ao lote uma nova edição do famoso art book Akira Club bem como um remendo bordado com a pílula que serve de insígnia urbana ao protagonista Kaneda.

Em 1988, o mesmo ano em que chegou aos cinemas japoneses a super influente versão em anime, realizada pelo próprio Otomo, começou a ser publicada a tradução colorida americana. A Marvel Comics, tendo adquirido os direitos de publicação nos EUA, produziu-a através da Epic, a sua chancela para títulos mais alternativos ao mainstream americano. Para o efeito, Otomo escolheu o famoso colorista Steve Oliff, que trabalhou todas as cores por computador, implementando na realidade aquela que se tornaria a revolução digital dos comics na década de 90.

Contudo, esta é uma edição para o purista, que lê Gibson, Dick, Farmer, Sirius e Frauenfelder e que sabe qual, entre todas as versões de Blade Runner, é que é mesmo a de Ridley Scott. Por isso, a Kodansha reproduziu aqui meticulosamente as pranchas originais a preto-e-branco, um regresso ao vinil para quem não se contenta com o remaster a cores.

02 Dezembro
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